Ser pai de uma criança autista não é viver uma história pronta.
É aprender todos os dias. Muitas vezes sem manual, sem protocolo e, pior, sem apoio suficiente.
Eu sou pai do Rudá.
E, antes de qualquer cargo, é isso que me move.
Quem vive o autismo de perto sabe: não existe linha reta.
Há dias de avanço. Há dias de repetição. E há dias em que parece que estamos andando em círculos. Não por falta de esforço, mas por falta de estrutura.
E aqui está o ponto que o Brasil ainda insiste em ignorar:O problema não é a família. É o sistema.O número de diagnósticos cresce. Isso é fato.Mas o que cresce junto com ele?
As escolas continuam despreparadas.
Os profissionais especializados são insuficientes.Os serviços públicos não acompanham a demanda.
E muitas famílias seguem, sozinhas, tentando preencher lacunas que deveriam ser responsabilidade do Estado.Isso não é inclusão.
Isso é abandono disfarçado.Como gestor, ajudei a implantar centros de acolhimento para autistas e suas famílias.
E posso dizer com clareza: faz diferença. Muda vidas.
Mas também sei, com a mesma honestidade, que ainda é pouco.
Porque não se trata de ações pontuais.Se trata de política pública estruturada, contínua e baseada em ciência.
O Brasil precisa parar de tratar o autismo como pauta acessória.
Não é.
É uma realidade que exige:
Diagnóstico precoce com acesso universal.
Rede de atendimento multidisciplinar.Formação real para professores.
Apoio psicológico e social às famílias.
Protocolos claros, que hoje simplesmente não existem de forma consistente.
Sem isso, continuaremos empurrando pais e mães para um labirinto sem saída.
E não dá mais para romantizar essa luta.
Abril é azul.Mas não pode ser só simbólico.
Precisa ser um marco de compromisso.
Como pai, eu sinto.
Como gestor, eu ajo.
Mas, como sociedade, precisamos decidir: vamos continuar reagindo ou finalmente estruturar?
Porque inclusão de verdade não é discurso.
É sistema funcionando.
E hoje, ainda não está.
